sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Márcio Vanderlei, um mestre na arte de tocar e construir o banjo II


Dizendo no pé

E termino hoje escrevendo sobre um grande amigo, um músico desses raros do samba e um luthier de banjos e cavacos. Mas começo corrigindo um vacilo. É Vanderlei com v e com i. Certo? Agora sim posso continuar. É Márcio Vanderlei. E o conheci nos saudosos e bons pagodes que aconteciam na quadra da Associação Atlética de Oswaldo Cruz, ali pertinho da Estação de Osvaldo Cruz. Fazia parte do hoje extinto Grupo Sonho Real, que comandava o Pagode da Tia Doca, em meados de 1992. E o som de seu cavaco se destacava. Chamou minha atenção e na primeira oportunidade o levei para os palcos e para os estúdios de gravação. E digo isso com o maior orgulho e com a humildade de ter sido apenas o ajudante para o brilho desta fera da música.



A fera do banjo


Estava preparando um show de Mestre Marçal que dirigi no Asa Branca. Seriam apenas três dias que acabaram se transformando numa temporada de um mês, com muitos convidados e que viria a ser a última do Mestre. E chamei Márcio para substituir o Márcio Hulk, que iria viajar com a Beth Carvalho. Fui apresentá-lo ao Marçal e o elogiei muito. Aí aconteceu o inesperado. Marçal pediu o tom para cantar Amélia. E no meio da música deu um branco e Márcio se perdeu nos caminhos melódicos do sucesso de Mário Lago. E Mestre Marçal mandou: “Ué, meu sobrinho, E agora? O bicho pegou”. Mas o branco passou e o então novato passou no teste e foi pro show. Que sufoco!

O miudinho em terras japonesas


A temporada foi uma beleza. Mas teve uma outra de Márcio Vanderlei. Certa noite, todos prontos para começar o show e nada do cara chegar. E até poderia ser substituído, pois na platéia estavam Alceu Maia, Wanderson Martins, Mauro Diniz, uma coincidência, né? Mas nenhum estava com o instrumento. Ou seja, o show começou sem cavaco. Até que após várias tentativas consegui achar a namorada, hoje esposa, que foi acordá-lo. É, o cara tava no maior ronco. Foi voado pro Asa Branca e já entrou tocando. Outro sufoco!
Mas estas aventuras são raridades na trajetória de Márcio Vanderlei. Competente, musical, com um ouvido raro e um HD nota 10 para repertório de samba, ele é de confiança. Já tocou também com nomes como Arlindo Cruz, Sombrinha, Paulinho Mocidade e, desde 1999 integra a banda que acompanha Beth Carvalho. Com ela já esteve, por exemplo, em Portugal e em diversos festivais de música da Europa.

E por aí vai Márcio Vanderlei e seu cavaquinho com afinação de bandolim (sol-ré-lá-mi). No comando de seu grupo Partideiros do Cacique e agora também no seu pagode com o amigo Ovídio Brito, que estréia domingo que vem, dia 21, no Renascença Clube, ali na divisa de Vila Isabel com o Andaraí, perto aqui da Lapa.


Com o parceiro Ovídio num novo pagode
E por aí vai levando suas origens de um Paraíso Musical chamado Morro de São Carlos, dos ensinamentos de seu pai, dos bons tempos do Regional do Vanderlei, dos bons tempos de rádio no programa Henrique Batista. E, mesmo não tendo vivido a época dos programas de auditório, Márcio tem na memória as reuniões musicais que aconteciam na casa do tio Binha, reunindo várias feras do choro. E virava um baile, com três violões de sete cordas na roda, cada um tocando numa região. Sem atropelos, sem barulho, na disciplina.
É, ele teve escola. Em casa. No morro. E num morro onde foi o berço do samba. O menino Márcio ouvia, aprendia e hoje canta, toca e ainda diz miudinho no pé, como os antigos do samba duro. Que esta arte continue por nossas ruas, nossas vielas, esquinas, estúdios, palcos, já que nas rádios e TVs é tão difícil. Valeu, Márcio Vanderlei...


Ah, espera aí. Ia bem esquecendo. Lembra que terminei semana passada falando do engraçado Márcio? Pois bem. Fica perto dele que vai ouvir piadas do arco da velha. O cara é bom na piada, na imitação. Mas cuidado. Ele pensa muito rápido. Não deixe na reta, valeu? Quem avisa, amigo é...

Por Marcos Salles


Comigo e Xande de Pilares, do Revelação, na gravação do CD Jovelina Duetos


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