quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mestre do surdo


 


    Um mestre é sempre uma referência para seus admiradores. Se no futebol temos Pelé, Garrincha, Didi, Gérson, Zico, Júnior e tantas outras lendas, no samba também posso destacar vários, mas hoje não vou lembrar de nenhum cantor ou compositor. Mas de um dos operários que participam da construção de cada um dos trabalhos, seja no estúdio ou no palco, de vários cantores. Aliás, ele não é um operário qualquer. É um artista. Para muitos, um ídolo. Escrevo hoje sobre o músico Antenor Marques Filho, o
Gordinho, o Mestre do Surdo.

    E se o surdo, este instrumento de marcação, tem um sinônimo, ele se chama Gordinho, que há 40 anos vem encantando e inscrevendo com maestria seu nome na galeria dos bambas do samba, como o número 1. Chamado por inúmeros ritmistas como mestre ou professor ele traz na humildade e na pontualidade suas armas principais. E, cá pra nós, é uma verdadeira aula assistir a uma gravação quando ele está tocando. Basta olhar para seu instrumento que ele está ali ao lado, aguardando a contagem do arranjador. Muitas vezes lendo um jornal. Tocando retinho ou registrando várias de sua firulas, ele
transforma cada samba.  
   
    E, se o produtor ou o arranjador o deixa com liberdade para “brincar”, aí é que “o negócio fica sério”. Nesses momentos, ele demonstra tamanha intimidade com o surdo, que surpreende até mesmo aos que já conhecem muitas de suas artimanhas. Gordinho faz da arte de tocar, uma coisa banal,
de uma criança.

    Carioca de Copacabana, mais precisamente da Ladeira dos Tabajaras, iniciou sua carreira por acaso, ao assistir a um ensaio do Conjunto Nosso Samba, no Bairro da Saúde, centro do Rio de Janeiro, no início dos anos 70. Inquieto, começou a tirar um som em um pequeno tantan, que era uma pequena barrica recoberta por uma câmara de ar. Chamou a atenção do esperto Genaro, líder do grupo, e não demorou muito para receber o convite e passar a ser um dos integrantes do Nosso Samba, que na
época comandava o samba nas noites de terça-feira, no programa de Salvador Batista, na Rádio Tupi.

    A partir daí, passou a se destacar tocando seu surdo em quase todos os discos de samba, incluindo, entre muitos outros, nomes como os de Caetano Veloso, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Simone, Daniel e ainda Dione Warwick e Paul Simon. E, de vez em quando, grava até
cantando, participando do vocal, como já aconteceu em discos de Beth Carvalho, Simone, Ney Matogrosso, das Escolas de Samba e de Bezerra da Silva. E, se não conseguiu gravar com
Elis Regina, colocou seu surdo no CD Samba Meu, de Maria Rita, filha dela.

    Entre as histórias que coleciona na sua trajetória por muitos estúdios de gravação, lembro de duas que ele me contou: numa delas, teve de entrar escondido para gravar no disco de Aniceto do Império. É que, mantendo sua linha tradicional, o grande partideiro da Serrinha preferia apenas a batida do pandeiro.
Mas, ao ouvir o surdo de Gordinho, gostou. E ficou. A outra aconteceu no folclórico estúdio Hawaí, localizado nas imediações da Central do Brasil. Ele provocou o desespero do técnico de gravação quando atacou repinicando a maceta no aro do surdo. O técnico parou tudo, pensando que alguma coisa havia caído no chão. Esta, aliás, é sua marca registrada. O famoso toque no aro pode ser notado em músicas de discos do Fundo de Quintal, do Mussum, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e muitos outros. E
devidamente copiado por muitos músicos da nova geração.

    Fora dos estúdios, ainda na época do Conjunto Nosso Samba (com Genaro, Carlinhos do cavaco, Barbosa, Stênio e Nô), acompanhou toda a carreira de Clara Nunes, em shows e gravações. Há muito considerado o número 1 do surdo, Gordinho se inspirou na classe de um dos grandes bateristas do samba, titular da banda de Chico Buarque: Wilson das Neves, seu grande ídolo. E escrever sobre Gordinho é lembrar de outros grandes músicos neste instrumento, como Nei, Bidu e Baiano (Samba
Som Sete), que já se foram. E também de outras feras que estão por aí, como Pirulito e Bira Hawaí (ele mesmo, o produtor do Molejo). Pirulito foi, durante anos, o surdo da Banda do Sol, que acompanha Alcione, e atualmente integra a banda de Beth Carvalho. Já Bira Hawai foi o srdo da primeira formação da banda de Zeca Pagodinho.

     Mas, com a certeza de esquecer alguém, destaco um quinteto da pesada que sabe bem tirar um bonito som do surdo: Mestre Silvão, Carlinhos Tcha Tcha Tcha (Partideiros do Cacique), Raul André (Roda de Bamba), André Rocha (músico do Fundo de Quintal) e Walthis Zacarias. É bom prestarem atenção nestes nomes. E, da nova geração, uma mulher que tira onda. É a Renatinha, do Grupo Só Damas. É para acabar com qualquer tipo de preconceito ver a Renata tocando. Ela é um show, tamanha beleza e firmeza com que toca o instrumento.

    E que todos estes e outros se espelhem na carreira de Gordinho. Afinal de contas, são 40 anos de uma folha limpa e repleta de elogios por todos os cantos. Saudade? Ele costuma dizer que sente dos tempos em que freqüentava os bailes na noite carioca. E não era tocando, mas rodando o salão no Orfeão Portugal ou na Casa do Marinheiro, entre outros clubes. É a versão de Gordinho dançarino.

    Pra terminar esta homenagem ao grande músico, sua resposta, quando perguntei o dia que terminaria a carreira: “Só paro quando Deus quiser, pois toco por amor”.
    É isso aí, Marquinho. Mandou bonito.

Marcos Salles

4 comentários:

  1. Opa pra mim o gordinho é o melhor de todos os tempos,e esta falado!!

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  2. Alguem sabe qual a marca desse surdo dele?

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  3. Muitos sonham em ser ricos, conquistar casas, carros, muito dinheiro, fama, mulheres, poder...... Já eu ha muitos anos sonho em fazer o que eu mais gosto na vida. Receberia um salario de trabalhador brasileiro do cotidiano para subir em um palco e com toda a minha alegria, intusiasmo, força, dedicação, coração fazer da vida o que eu mais gosto. E se um dia Deus me der a oportunidade de viver assim, eu quero ser pelo menos parecido pois é em voçe Gordinho Do Surdo em quem eu me inspiro. Sua alegria, humildade, responsabilidade, profissionalismo são coisas de se admirar de longe, Então parabens por vc ser quem vc é. SIMPLISMENTE O MELHOR. DEUS ABENÇÕE VC!

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